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A importância de referências positivas para crianças no combate ao racismo

Dia destes, nestas loucuras de ler mil coisas na internet enquanto trabalha (quem nunca!?), dei de cara com um texto chamado  “Dica de Livros Infantis: Protagonistas negros”. Parei. Não tenho filhos e não venham com esta de que é a mãe natureza chamando, por que esse papo de que mulher nasceu pra ser mãe, eu já não acreditava nem no auge dos meus 15 anos.

Mas, algo me fez parar… O texto era sobre  a saga de uma mãe que foi pega de surpresa com a pergunta:  “mãe, o que é ser negra?”.

O jeito que a Isabela, a mãe, arrumou para tentar dar uma resposta à filha, Beatriz, foi buscar referências positivas através de livros infantis. Logo ela percebeu que não é fácil encontrar referências positivas para uma criança negra no Brasil.

mãe mulher preocupada com filha criança triste

O trabalho foi árduo, mas o bacana é que ela encontrou muitos livros, sendo inclusive levada a escrever outro texto para conseguir contemplar a quantidade de sugestões que apareceram. Encontrar estes livros, na minha opinião, foi só um pequeno, ainda que importante passo para a Isabela lutar contra tantas outras imagens depreciativas do povo negro.

Mas, a busca dela me fez lembrar minha infância e a luta da minha mãe para desconstruir os ensinamentos que o mito da democracia racial trazia-me na rua, na escola, entre os amigos.

 

Crianças no combate ao racismo – como educar os filhos

 

Segundo o mito da democracia racial, somos todos iguais, cada brasileiro é um pouquinho preto, um pouquinho branco, um pouquinho índio. Mas, o que eu ainda não conseguia entender é: se todo mundo é igual, por que apenas meu nariz é motivo de piada, ou o tamanho da minha bunda, ou a protuberância da minha testa?

Por que minhas coleguinhas de 7 anos brincavam no sábado a tarde enquanto eu passava horas com aquele creme fedorento no cabelo para ficar “penteada”?  E o mais estranho é que, no país da “miscigenação”, o que eu mais ouvia era “se você é filha de preta com branco pode escolher ser preta ou branca! Depende com quem você se identifica mais”.

Qual criança vai ler num livro didático que os negros gostavam de serem escravizados e ainda assim vai “escolher” ser negra? Mas, é só uma questão de escolha. Ser descendente de um africano preguiçoso ou de um português desbravador?  Claro que escolhi ser branca! Mas, foi rapidamente e com muita dor que percebi que esta conversa de escolha era enganação…

Quando eu descobri que isso era mentira? Quando eu descobri que não podia ser paquita! Sim, as negras, como a maioria das meninas que cresceram nos anos de 1980 queriam ser paquitas! Não adiantava dançar bem, falar bem, não adiantava escolher ser “branca”. Aquele penteado ridículo que elas usavam ficava ainda mais feio em nossos cabelos crespos.

E quanto mais eu crescia, mais “exótica” eu ficava.  Um elogio que as negras sabem bem o que significa. Um verdadeiro golpe em nossa auto estima.

 

Mas, minha mãe, de forma muito guerreira, com uma força que nem ela sabe que tem, conseguiu me mostrar que a nossa existência não dependia do que os brancos achavam de nós, ou dos espaços marginalizados que eles queriam nos dar.

Ela compartilhou comigo sua negritude através da beleza de seu corpo, das histórias bonitas da luta pela sobrevivência de meus avós (que é o máximo que se conhece da nossa ancestralidade), da batalha de minha tia mais velha para poder estudar (a referência positiva!), o significado do sobrenome “Santos” e especialmente através das religiões africanas, o grande elo que até hoje tenho com minha ancestralidade.

Através dos Orixás aprendi que temos uma história, que tivemos famílias grandes e guerreiras, desenvolvemos muita tecnologia e que há um panteão de Reis, Rainhas e Guerreiros Negros.

mãe negra preta no parque sentada num banco com a sua filha criança negra preta

O texto da Isabela me emocionou tanto por que me fez lembrar da luta de cada mãe para valorização e construção da auto estima de nossxs pretinhxs, mesmo sob as piores condições! Me fez lembrar que a luta contra o racismo e da importância das crianças no combate ao racismo se dá através de políticas públicas, mas também se dá na relação de valorização de nosso património cultural quotidianamente.

Por isso, não podemos nos acostumar com o lugar que ocupamos na televisão e socialmente. Por que a busca por referências positivas para as crianças negras – também através do resgate de nosso passado, de livros que contém as histórias a partir de nosso ponto de vista – é dar a elas o direito de sonhar por um futuro melhor, de acreditar que a luta por futuro digno para o seu povo é o único caminho para sobrevivermos.

Um futuro em que não tenhamos que nos deformar emocionalmente e também fisicamente, com estas fórmulas mágicas de destruição dos cabelos crespos.

Queremos ter orgulho dos nossos ancestrais, queremos poder contar nossas histórias às nossas crianças tendo orgulho de ter sobrevivido à escravização de nosso povo, mantendo viva nossa cultura e traçando um futuro no qual uma criança negra não seja obrigada a acreditar que pode “escolher” ser branca.

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